Contos e cartas

06 de julho de 2020

Série (Des)contos do dia [01]

Todo dia ela faz tudo sempre igual. Não, não é uma tentativa de plágio da música de Seu Jorge. Aliás, que música. Representativíssima. Mas, sim, é verdade, há mais de cem dias ela faz tudo sempre igual, ou quase tudo. Se sacode às seis da manhã. Abre as cortinas do quarto, dá boas-vindas ao novo dia que, geralmente, não sabe qual é – ontem foi terça? – agradece mentalmente a Deus por mais um dia – sem corona – e segue para o banheiro.

No espelho, o rosto amassado de sempre ao qual já se acostumou a manter. Maquiagem pra que e pra quem se não vai sair de casa? Escova os dentes, lava o rosto, prende o cabelo num rabo de cavalo bem alto. Tudo igualzinho a ontem – ah, lembrei, ontem foi quinta – com exceção de uma espinha nova que apareceu na bochecha esquerda. Pele oleosa é uma merda.

Já na cozinha, mesmo ritual. A máquina de café expresso parece entediada, já sabe tudo o que vai acontecer. Na dúvida entre o caseiro intenso, o latte macchiato e o capuccino, o caseiro intenso sempre vence. Se a máquina tivesse mesmo um rosto, estaria revirando os olhos para a cena tão irritantemente cotidiana. A menos, claro, que hoje fosse domingo. Aí a cápsula do capuccino seria a favorita. Domingo é um bom dia para variar hábitos.

Ovos mexidos prontos na frigideira, uma pitada de orégano, uma fatiazinha de nada de queijo branco curado – sem soro por causa da lactose. Alguém sentindo falta do pão? Sim, mas carboidrato foi cortado. Se não dá pra sair pra malhar, se a preguiça não deixa malhar em casa, cortar o carbo é um sacrifício que precisa ser feito.

Isso, claro, até a hora do almoço, quando até o cachorro a olha com cara de “a quem você está enganando?”. Ou será que ele quer dizer “ei, minha tigela já está vazia de novo, helô-ou!”. O microondas nunca trabalhou tanto, coitado. É gira-gira de comida pronta que não acaba mais. Gira-gira de lasanha de carne moída, gira-gira de penne ao sugo, gira-gira de nhoque a bolonhesa, a carbonara, ao molho de abóbora, de camarão. É cardápio italiano, francês, mundial. Tudo em porção única, congelada e prática. Cortar o carbo não é tãão imprescindível assim, vai.

Na sala, controle da TV à mão, zapear na Netflix é o que há. Deus a livre de passar por um canal aberto sem querer e ouvir mais uma vez o número de óbitos do estado, do país, do continente, do mundo. De novo e de novo. Não, o pior não é isso. É isso e mais as falas nonsense dos políticos sobre isso. Deus a livre. Depois de uns trinta minutos mais ou menos, uma novidade no catálogo do streaming a chama de volta à realidade. Precisa assistir algo e não apenas pular de um quadrinho pro outro. Hoje é sexta, né? Ela resolve assistir um doc bebendo uma taça de vinho branco, pra variar. Bom, ontem foi tinto.

Cinco da tarde. Documentário assistido, louça lavada, apartamento varrido, banheiro limpo, cachorro passeado, rede social atualizada, segundo banho do dia tomado. Ela olha pela janela do segundo andar a rua que há cem dias era tão movimentada, quase deserta. A não ser por uns dois ou três candanguinhos desfilando nitidamente à toa e sem máscara, tudo parece o tal novo normal de ontem, de semana passada, do mês passado.

Alguém sentindo falta do home office? Adivinhe só, logo este mês ela está de férias. Ela não queria, mas tem coisa que não dá pra escolher. É agradecer pelo privilégio e suprimir o tédio. Até rimou. Oito da noite. Chamada de vídeo com os pais feita, mensagens do namorado respondidas – isso ainda é um namoro? – cachorro escovado e alimentado; outra taça de vinho, dessa vez rosé. Variar é bom. Mesmo que seja uma variação bem ilusória, e a garrafa de vinho pela metade é uma prova disso: ontem, neste mesmo horário, ela bebeu do mesmo rótulo. Hoje é sexta, né? Ela se libera para beber duas taças, no fim das contas, e brinda a mais um dia de solitude e mesmice – mas sem corona – ao som de Seu jorge.

Mini conto escrito para o Instagram sobre a quarentena: @cyntia2fonseca

15 de março de 2020

‘O amor acontece, né’

Eu nunca fui de chorar a toa. E nunca fui de chorar em público. Sempre procurei me equilibrar emocionalmente ao máximo para não chegar ao ponto de chorar na frente de ninguém. Na maioria das vezes, deu certo. Pensar antes de dizer, calcular antes de tomar uma decisão, se colocar no lugar do outro. Mesmo, às vezes, acreditando que o outro estava errado, sempre pensei “mas ainda assim, ele tem os motivos dele. O que eu faria na mesma situação se fosse comigo?”

Acontece que ninguém valoriza isso. Não até perder. Aconteceu uma, duas, três vezes. Parece que é regra. Só enxergam a sua parceria, sua dedicação ao relacionamento, seu amor, quando perdem. Quando a decisão de seguir em frente já está tomada. Quando já não resta mais nada. Aí chega o momento de o outro lado chorar. E acaba sendo pior porque as lágrimas vêm recheadas de arrependimento e do sentimento de ser tarde demais. Porque é. É tarde demais. Geralmente, quem decide seguir em frente sem olhar para trás é porque já repensou muitas vezes antes. Já tentou, já dialogou, já demonstrou uma, duas, centenas de vezes e não teve resposta. Já teve o travesseiro molhado várias vezes. 

Então, sim, é tarde demais. Porque o sentimento já foi dissipado. E isso independe de tempo. O tempo corre diferente para cada pessoa. É injusto julgar quem decide recomeçar em três meses, sem levar em conta o que essa pessoa havia tentado em um ano. O amor acontece, eu ouvi certa vez. E concordo. Acontece sim, quando você dá abertura para ele acontecer. Quando há empenho, dedicação, troca, interesse. Interesse em enxergar como a pessoa é por dentro, e não apenas interesse físico, carnal. O amor acontece quando menos esperamos, mas também acontece ao ser construído, aos poucos, a partir de uma amizade.

Acontece que são poucos que sabem disso. E geralmente só se dão conta quando estão chorando. Mas agora já não adianta. É tarde demais. 

11 de março de 2020

Carta ao bebê

Faltam alguns dias para eu saber se você é menino ou menina e, sim, estou ansiosa. Mas saiba que isso é, de longe, o mais importante. É mais questão de logística, vaidade, querer planejar, essas “bobeiras”.

Na verdade, eu queria começar essa carta com um pedido de desculpas. Preciso te avisar desde já que o mundo aqui fora não está lá essas coisas. Eu gostaria muito de dizer que vou te proteger de tudo e de todos o quanto eu puder, mas seria uma mentira das grandes. Eu quero e vou tentar, juro. Mas não é bem assim que funciona.

O mundo é cruel, sujo, repleto de seres viventes maus, organizados em sociedades hipócritas. Desculpe por isso. Eu queria que fosse diferente, de verdade.

Se você for menina, o que posso fazer é te ensinar a se proteger e ser forte. Mesmo assim, sei que isso não te deixará isenta de sofrer uns bocados. Saiba que não te faltará carinho e atenção em casa. Mas na rua, o mundo é de quem é mais forte, não tem jeito.

Se você for menino, minha missão é te educar para ser o mais longe possível de um homem egocêntrico, machista e violento. O mundo já está repleto deles e que eu tenha forças para te mostrar, diariamente, o porquê de eles não serem exemplos para você. É uma missão e tanto, mas de antemão já peço desculpas pelas vezes que sei que vou falhar.

Mas, bebê, é claro que vir a esse mundo também tem seu lado bom. Prometo me esforçar para te mostrar o melhor que há. Família, amigos verdadeiros, animaizinhos de estimação, lugares, comidas, momentos, são alguns exemplos que fazem valer a pena viver, você vai ver.

Ah, e não prometo ser a melhor mãe do mundo, tá. Tenho um milhão de defeitos e provavelmente você vai conhecer vários deles. Mas prometo ser a melhor mãe possível.

31 de outubro de 2019

Não só por hoje


Hoje Alicia acordou disposta a driblar o mal. Só por hoje, ela decidiu simplesmente acordar, ser grata por estar viva e seguir em frente. Deu bom dia ao pai, à mãe, às duas irmãs e ao irmão que havia voltado a morar com todos eles após se dar mal na vida. Ops, a palavra mal está proibida de ser mencionada ou mentalizada. Só por hoje, pensou Alicia.Todo mundo erra, afinal, e ela deveria ser grata pelo irmão poder contar com a família e ter uma segunda chance. Isso, melhor pensar assim. Até que mentalizar o bem não é lá tão difícil.

Escovou os dentes, fez a mochila, calçou as sapatilhas surradas. Tá bem, esquece o ‘surradas’, porque o importante é que elas ainda cumprem muito bem sua função, que é calçar os pés, oras. Mentalizei o lado positivo mais uma vez, pensou Alicia. Ela poderia se acostumar com isso. 

No ponto de ônibus, quinze minutos se passam entre apoiar o corpo num pé ou no outro, procurando caber exatamente numa estreita sombra produzida pelo poste. Hoje o sol resolveu brilhar com todo seu vigor, a temperatura nas alturas acompanha a ópera e é inevitável não transpirar horrores. Alicia odeia transpirar. Mas só por hoje ela mentaliza que tudo bem transpirar. É um fenômeno natural. O ser humano tem poros para isso, não é mesmo? E devemos ser gratos pelo sol, pelo céu, pela natureza. Quem estraga o meio ambiente e desequilibra a temperatura somos nós mesmos, os humanos, pensou Alicia. 

Vinte e cinco minutos. Nada do ônibus. Já não cabe mais ninguém na fila que se formou ao longo da sombra do poste. Uma senhorinha parece transpirar mais do que todos juntos debaixo do sol forte e Alicia se sente compelida a ceder seu espacinho da sombra. Preciso ser grata por ser jovem e, portanto, mais resistente do que essa pobre senhora, pensou Alicia. Gratidão é a palavra-chave de hoje. O mal não pode vencer essa batalha mental, não hoje. Mentalizar o bem não é nada difícil, pensou Alicia já com o cabelo grudado e a maquiagem borrada pelo calor. 

Passados vinte e oito minutos, o aguardadíssimo coletivo entra em cena. Que sorte o motorista parar no ponto de ônibus. Não é óbvio e não é sempre que acontece. Outra sorte do dia? Não veio abarrotado de passageiros, como sempre acontece. Parece que mentalizar o bem funciona mesmo, pensou Alicia, assim que tomou seu assento no transporte público.

Só por hoje, Alicia resolveu driblar o mal e não acessou nenhuma rede social pelo celular durante a viagem até o trabalho. Em vez disso, abriu um aplicativo de música e selecionou apenas artistas que cantavam letras do bem. Abrir redes sociais era arriscar-se muito à ler notícias de violência, tragédias, desemprego, escândalos. Era preciso abrir mão disso para higienizar a mente, driblar o mal, mentalizar positivo. Mas, só por hoje.

O trajeto até o trabalho até poderia ser breve, não fosse a cidade mal organizada com seus incontáveis semáforos desajustados e avenidas estreitas, as centenas de carros com ocupantes únicos, os buracos no asfalto mal confeccionado. Eu disse mal outra vez? Meu Deus, a palavra mal é difícil mesmo de combater até em pensamento. Ou principalmente no pensamento. Preciso mentalizar positivo, insistia Alicia, direcionando os pensamentos para palavras como gratidão, positividade, esperança, dias melhores, bem, bom, melhor.

Afinal, Alicia tinha um emprego. Quantos milhões não têm? Não paga tão bem, é verdade, mas quantos pagam? Alicia tem saúde. Quantos em vez de estarem nas filas da sombra do poste, estão em filas de hospitais? Alicia tem família. Quantos cresceram sem uma, em abrigos, ou nas ruas? Alicia tem esperança, quantos já perderam? 

Alicia tem consciência. De que tudo poderia ser melhor, se as dificuldades da maioria de um povo não precisassem ser romantizadas para serem notadas. E combatidas. Se quem tivesse conhecimento, usasse para ajudar pessoas, não humilhá-las. Alicia tem esperança. De que um dia combater o mal seja mesmo apenas questão de mentalizar positivo. E não só por hoje.